Pastagens no Brasil: o ativo subutilizado que pode dobrar a produtividade da pecuária

O Brasil tem o maior rebanho bovino comercial do mundo, com mais de 220 milhões de cabeças, e a maior parte desse rebanho é criada em pastagens. Mas uma parcela expressiva dessas pastagens está em algum grau de degradação, com capacidade de suporte muito abaixo do potencial agronômico das forrageiras cultivadas e dos solos onde estão estabelecidas.

Estimativas da Embrapa e do MAPA indicam que entre 50 e 70 milhões de hectares de pastagens brasileiras apresentam algum nível de degradação, desde queda na produção de forragem até erosão do solo e infestação por plantas invasoras. 

Esse passivo representa, ao mesmo tempo, o maior desafio e a maior oportunidade da pecuária nacional. Recuperar pastagens degradadas é o caminho mais direto para aumentar a produção de carne e leite sem desmatar um hectare sequer.

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O que é degradação de pastagem e como ela ocorre

A degradação de pastagem é um processo progressivo que começa com práticas de manejo inadequadas e evolui, se não corrigido, até o colapso completo da capacidade produtiva da área.

As causas mais comuns

A superlotação é a causa mais frequente de degradação. Quando a carga animal supera a capacidade de rebrota da forrageira, as plantas perdem reservas de carboidratos nas raízes, enfraquecem progressivamente e abrem espaço para a invasão de plantas indesejadas.

A ausência de fertilização de manutenção é a segunda causa mais relevante. O pasto não é um sistema autossustentável em solos de Cerrado: sem reposição periódica de nutrientes, especialmente fósforo e nitrogênio, a produtividade cai a cada ano, mesmo com manejo adequado da carga animal.

Os estágios da degradação

Pesquisadores da Embrapa classificam a degradação em quatro estágios progressivos:

EstágioCaracterísticasCapacidade de suporte
IVigor reduzido, falhas iniciais70% a 90% do potencial
IIInvasoras presentes, solo compactado40% a 70% do potencial
IIIInvasoras dominantes, erosão incipiente20% a 40% do potencial
IVSolo exposto, erosão severaAbaixo de 20% do potencial

Pastagens nos estágios I e II têm recuperação mais simples e barata. Estágios III e IV exigem intervenções mais intensas, frequentemente com renovação completa da forrageira.

Por que recuperar pastagens é uma prioridade estratégica

Impacto econômico direto

Uma pastagem produtiva suporta entre duas e quatro vezes mais animais por hectare do que uma pastagem degradada, sem necessidade de aumento de área. 

Para um pecuarista com 1.000 hectares de pasto em estágio II de degradação, a recuperação pode representar o dobro de animais no mesmo espaço, com impacto direto e expressivo na receita da propriedade.

Agenda ambiental e crédito de carbono

Pastagens degradadas são emissoras líquidas de carbono. Pastagens recuperadas e bem manejadas funcionam como sumidouros, sequestrando carbono no solo e na biomassa vegetal. 

Essa transição tem valor crescente no mercado de créditos de carbono e nos programas de financiamento verde, como o Plano ABC+, que destina crédito subsidiado especificamente para recuperação de pastagens.

Redução da pressão sobre biomas nativos

Cada hectare de pastagem recuperado produz mais carne com menos área. Isso reduz a pressão econômica por abertura de novas áreas em biomas sensíveis, contribuindo para os compromissos de desmatamento zero que os mercados internacionais cada vez mais exigem da cadeia bovina brasileira.

Como recuperar uma pastagem degradada

A estratégia de recuperação depende do estágio de degradação e dos recursos disponíveis. Há diferentes caminhos, com custos e resultados distintos.

Recuperação direta

Indicada para pastagens em estágios I e II, a recuperação direta mantém a forrageira existente e realiza intervenções para restaurar sua produtividade:

  • Calagem e adubação: corrigir o pH e repor os nutrientes mais limitantes, especialmente fósforo e potássio.
  • Controle de invasoras: eliminar plantas indesejadas que competem com a forrageira por luz e nutrientes.
  • Ajuste da carga animal: reduzir temporariamente a lotação para permitir a recuperação das plantas e do solo.

Recuperação por reforma

Pastagens em estágios III e IV frequentemente exigem a eliminação da forrageira existente e o estabelecimento de uma nova espécie ou cultivar. O processo envolve dessecação da vegetação, preparo do solo quando necessário, correção da fertilidade e semeadura de forrageira adaptada às condições locais.

Cultivares modernas de Urochloa (braquiária) e de Megathyrsus maximus (capim-mombaça, tanzânia e quênia) têm potencial produtivo muito superior às variedades tradicionais e são as mais indicadas para reformas em regiões do Cerrado.

Integração lavoura-pecuária como estratégia de recuperação

A integração lavoura-pecuária (ILP) é uma das estratégias mais eficientes e rentáveis para recuperar pastagens degradadas. O modelo consiste em cultivar uma lavoura comercial, geralmente soja ou milho, na área da pastagem a ser recuperada, aproveitando a movimentação de solo e a adubação da lavoura para estabelecer a nova forrageira em consórcio.

Ao final do ciclo da lavoura, a forrageira já está estabelecida com fertilidade adequada, sem o custo de um plantio exclusivo de pastagem. O produtor recupera a pastagem sem pagar por isso, pois o custo é absorvido pela receita da lavoura comercial.

O portal Mais Agro aprofunda a relação entre pastagens e sistemas integrados no conteúdo sobre agricultura regenerativa e como as práticas regenerativas se aplicam à pecuária sustentável.

O Plano ABC+ e o financiamento da recuperação

O Programa ABC+ disponibiliza crédito com taxas subsidiadas especificamente para recuperação de pastagens degradadas, reconhecendo o impacto ambiental positivo da prática. 

Na edição 2023/24 do Plano Safra, as linhas do ABC+ para recuperação de pastagens ofereceram taxas entre 8% e 10,5% ao ano, com prazos de até 12 anos e carência de até 3 anos.

Para acessar o crédito, o produtor precisa apresentar um plano de recuperação aprovado por técnico habilitado, comprovando as práticas que serão adotadas e as metas de resultado esperadas. 

Essa exigência, além de garantir a qualidade técnica do projeto, cria um registro do processo que pode ser aproveitado futuramente para certificação em programas de crédito de carbono.

Manejo pós-recuperação: o erro que não pode acontecer

Recuperar uma pastagem degradada e não mudar as práticas de manejo que causaram a degradação é o erro mais comum e mais custoso do setor. 

A superlotação que degradou a pastagem original vai degradar também a pastagem recuperada, em ciclo que se repete até que o solo esteja tão comprometido que a recuperação já não seja economicamente viável.

O manejo correto pós-recuperação inclui:

  • Monitoramento da oferta de forragem: ajustar a carga animal conforme a disponibilidade real de pasto, não por estimativas ou hábito.
  • Período de descanso adequado: rotação entre piquetes com tempo suficiente para recuperação das plantas antes do novo pastejo.
  • Adubação de manutenção anual: especialmente nitrogênio em pastagens com alta exigência e fósforo em solos de Cerrado.
  • Monitoramento de invasoras: identificar e controlar espécies invasoras antes que se tornem dominantes.

O portal Mais Agro reúne conteúdos sobre agricultura de baixo carbono com análise de como a recuperação de pastagens se encaixa na agenda climática e nos programas de financiamento disponíveis para o produtor.

A pastagem produtiva como base da pecuária sustentável

O Brasil não precisa de mais área para produzir mais carne. Precisa de pastagens que produzam mais por hectare, com menos impacto ambiental e mais eficiência no uso dos recursos naturais. Esse caminho existe, está comprovado pela ciência e tem financiamento disponível.

O que falta, em muitos casos, é a decisão de começar. E quanto antes essa decisão for tomada, menores os custos de recuperação e maiores os ganhos acumulados ao longo das próximas décadas de atividade.

Sobre o Mais Agro

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